Pesquisa audiovisual: o ofício de conversar com as pessoas

(Foto: Thiago Foresti)

Todo mundo tem algo extraordinário para contar. É a tia da parada de ônibus, o moço na fila do pão, a molecada na praça…  São memórias que contribuem para um mundo diferente daquele dos livros de escola. É possível descobrir verdadeiros contadores de causos nas pessoas mais inusitadas. À primeira vista, você pode não dar nada para aquela senhorazinha sentada no banco, até ela prender a sua atenção com um passado revolucionário e projetos para o futuro.

Para coletar encantos e sonhos, no entanto, é preciso saber falar com as pessoas. E é aí que entra o trabalho do pesquisador no audiovisual. Sua função é encontrar as histórias mais interessantes e quem sabe contá-las. Falas confusas, frases incompletas e dicção ruim são alguns indícios de que aquele personagem pode não ser a melhor escolha para aparecer na tela. A professora e pesquisadora da Escola de Comunicação da UFRJ Consuelo Lins lembra que esses critérios não são definitivos e muitas vezes a equipe de pesquisa pode discordar. Mas o objetivo comum é descobrir contadores que saibam dar aquele toque de magia ao seu relato.

Ou isto ou aquilo, já dizia Cecília Meireles, recordando que a vida é feita de escolhas. A seleção dos personagens das séries de TV da Forest e das fontes que apoiam o trabalho por trás das câmeras ocorre durante a etapa de desenvolvimento. Após pesquisa sobre o tema e com uma ideia na cabeça, a equipe da Forest constrói perfis de quem pode contar aquela história. Os critérios para buscar os personagens podem partir de um tipo de personalidade, uma faixa etária, uma ocupação, uma habilidade específica, a região de origem e assim por diante. A partir desses perfis, o máximo de contatos são levantados, começando por parcerias e redes de conhecidos. Um bate papo pelo telefone ajuda a identificar se a trajetória da pessoa combina com a proposta da série e também serve como pista sobre a sua desenvoltura para contar histórias. Todas as informações e as observações são anotadas em fichas e planilhas, disponíveis para o roteirista, que se inspira no material.

Os métodos para realizar a pesquisa e a seleção de personagens podem variar, mas negligenciar essa etapa de pré-produção pode resultar em um filme “sem pé nem cabeça”, de acordo com o documentarista Barry Hampe. O cineasta acredita que o trabalho do pesquisador deve ser semelhante àquele de um jornalista na hora de buscar e apurar informações para uma reportagem. A pesquisa identifica não só personagens interessantes, mas verifica fatos, descobre locações e distingue as diferentes perspectivas sobre a história que vai ser narrada.

Entretanto, os prazos apertados podem dificultar o trabalho de pesquisa e levar a pistas falsas. Diversificar as fontes é uma boa forma de evitar esses sufocos. Fica a critério do cineasta qual aspecto dos fatos explorar em seu filme. Recentemente a Forest esbarrou em um personagem histórico controverso. Por um lado, ele se apresentava como um grande estudioso, conhecedor da Amazônia. Por outro lado, se perdeu na mata procurando uma mítica civilização. A pesquisa levanta todos os fatos, o roteiro cria o sabor de histórias com vários ângulos e surpresas.

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